====== MÄRCHEN CRITICADO ====== //Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.// Escrevendo a Schiller em 4 de dezembro de 1795, M. de Humboldt lamenta a incompreensão do público, que não demonstra capacidade para apreciar o conto recente de Goethe. Ele próprio não hesita em considerá-lo uma obra-prima do gênero, de conteúdo profundo, apresentada de maneira tão ágil e gentil que a imaginação permanece fascinada. No entanto, ele ouviu críticas ao Märchen. Censuram-no por nada dizer, por carecer de significação, de sal e de vigor, sendo apenas um jogo frívolo da fantasia, desprovido de um sentido que possa ser retido. Esse julgamento filisteu dá razão a Goethe que, em teoria, abstinha-se de complicar um conto com profundidade filosófica, pois esse gênero literário deveria visar apenas ao entretenimento agradável, fazendo esquecer as preocupações da realidade. Essa fórmula resultou em contos simples, desprovidos de esoterismo, como o Novo Páris e a Nova Melusina, que não inquietaram o espírito de nenhum exegeta, limitando seu objeto a embalar imaginações plácidas. O Märchen não é mais um cândido relato fantástico que se compraz em maravilhar crianças e distrair momentaneamente os adultos de suas ocupações absorventes. Se não fosse além disso, esse conto estaria longe de ser um modelo do gênero. Seria excessivamente longo e denso em peripécias difíceis de memorizar. O leitor sem malícia nele se perde e permanece atônito: nada compreendendo, acusa o poeta de zombaria. Goethe, contudo, não teve qualquer intenção de mistificação. Após deliberar com Schiller sobre as regras literárias impostas ao gênero, dedicou-se ao trabalho permitindo o livre curso de sua imaginação. Ora, esta, abandonada a si mesma, pouco se preocupou com o programa convencionado. Demonstrou uma independência genial, inspirando-se em concepções que orbitavam as esferas distantes da mentalidade do grande pensador. Representem-se planetas exercendo influência, embora ainda não descobertos. É esse mundo pressentido, mas não manifestado à consciência, que se reflete na imaginação dos videntes que são os verdadeiros poetas: vates. Ao sentir prazer em registrar o que se apresentava espontaneamente em sua busca por peripécias inesperadas, Goethe foi plenamente atendido. O maravilhoso surgiu coordenando-se harmoniosamente, com a lógica indispensável que o gosto impõe às produções do espírito. Liberto de qualquer outra preocupação, o escritor cogitou apenas escrever bem. Constatou que a menor das coisas torna-se séria assim que a arte lhe é aplicada. Se o tema do Märchen é desconcertante ou mal escolhido segundo o critério do leitor pouco sutil, a forma é admirável. Goethe parece ter se superado nessa prosa límpida, de frases sóbrias, em que nenhuma palavra é supérflua. Tudo é relevante nesse relato rápido, que poderia ter sido adornado com belas descrições, o que sobrecarregaria este conto já tão substancial. O obstáculo foi evitado graças a uma magia evocativa, poderosamente sugestiva com o mínimo de indicação. Sem que Goethe tivesse consciência disso, precisou apenas o que deveria concorrer para guiar a interpretação. Esta última pode basear-se apenas em um estudo metódico do Märchen, cujos atores devem ser identificados um a um ou aproximados, a fim de que se esclareçam pelo contraste. Os papéis principais são desempenhados pela bela Lília, seu noivo, o Velho da Lâmpada e a Serpente. Esta última é particularmente misteriosa e sua importância justifica o título de Conto da Serpente Verde atribuído ao Märchen. Para auxiliar o leitor a melhor recordar as peripécias do drama narrado, julga-se útil dividi-lo em seis atos. I. PRIMEIRA NOITE. Tendo despertado o Barqueiro, os Fogos-Fátuos solicitam a travessia e pagam com moedas de ouro, que são lançadas à Serpente, ávida por devorá-las. O réptil, que a absorção do ouro torna luminoso, reúne-se aos Fogos-Fátuos que terminam de saciá-lo com o metal precioso. II. PRIMEIRO DIA. A Serpente fosforescente explora a cripta sagrada, onde as estátuas reais lhe dirigem a palavra. Ocorre a aparição do Velho da Lâmpada, que cumpre sua missão e, em seguida, atravessa sem resistência a espessura rochosa da montanha para retornar à sua morada. Durante sua ausência, sua esposa recebeu a visita dos Fogos-Fátuos, cuja travessura provoca a morte do cão Pug. III. SEGUNDA NOITE. Ao retornar ao lar, o Velho da Lâmpada transmuta o cadáver do cão em ônix; em seguida, pelo efeito da Lâmpada, doura novamente o interior de sua habitação, cujas paredes haviam sido desnudadas pelos Fogos-Fátuos. IV. SEGUNDO DIA. Ao amanhecer, a Velha põe-se a caminho para quitar a dívida dos Fogos-Fátuos e levar à bela Lília o cão de ônix. A sombra do Gigante rouba-lhe uma couve, uma alcachofra e uma cebola. O Barqueiro aceita a conta incompleta dos vegetais devidos apenas mediante o compromisso que a Velha assume perante o Rio. Desembarcado pelo Barqueiro, o Príncipe encaminha-se para a bela Lília em companhia da Velha. Atravessam o Rio sobre a Serpente, que atua como passarela. Com eles, porém invisíveis, os Fogos-Fátuos alcançam a margem habitada pela bela Lília, para onde a Serpente também se desliza. Lília, cujo canário favorito acabara de morrer pelo contato com ela, reanima o cão de ônix trazido pela Velha. Quando o Príncipe se aproxima, vê com despeito sua noiva prodigalizar carícias a um animal horrendo e, resolvido a pôr fim à situação, lança-se nos braços de Lília, preferindo a morte ao estado de degradação que lhe é imposto. A catástrofe seria irremediável sem a Serpente, que forma um círculo ao redor do Príncipe inanimado; contudo, tudo estaria perdido sem a chegada do Homem da Lâmpada, no momento em que desaparece o último raio de sol. V. TERCEIRA NOITE. Até a meia-noite, ocorre a vigília ao redor do cadáver do Príncipe, seguida pelo transporte deste para a margem oposta, tendo a Serpente se oferecido como ponte luminosa para a procissão de personagens, todos luminosos por si mesmos, cada um à sua maneira. Ocorre o sacrifício voluntário da Serpente, cuja vitalidade reanima o Príncipe. As pedras preciosas em que se decompôs o corpo do réptil são lançadas ao Rio. A procissão reorganiza-se e penetra no santuário escavado no centro da montanha. Este entra em movimento, passa sob o Rio e emerge da terra no local da cabana do Barqueiro. VI. MANHÃ DO TERCEIRO DIA. O Templo erigiu-se por si mesmo. Os reis conferem ao Príncipe seu triplo poder de ação, estética e inteligência; o novo reino estabelece-se. Lília está feliz. Suas seguidoras trazem-lhe a Velha rejuvenescida, que, por mil anos, torna-se novamente a companheira do Homem da Lâmpada, promovido a conselheiro do jovem Soberano em companhia do Barqueiro transfigurado. As pedras preciosas provenientes da Serpente reuniram-se nas águas do Rio para constituir os pilares e os arcos de uma vasta ponte, que estabelece a circulação mais animada entre as duas margens outrora desertas. O Gigante estúpido ameaça a nova ordem das coisas, mas é metamorfoseado em estátua de pórfiro assim que atinge o meio da praça que se estende entre a Ponte e o Templo. Os Fogos-Fátuos gratificam com seu ouro a multidão vinda para admirar as maravilhas dos tempos passados.