====== VIDA E MORTE ====== //David Lapoujade. L’Altération des mondes. Versions de Philip K. Dick. Paris: Éditions de Minuit, 2021// O problema geral de Dick — "o que é a realidade?" — está estreitamente correlacionado a outro problema igualmente crucial: "o que está vivo e o que está morto? Como distingui-los?" * Os andróides não são somente robôs que imitam o homem a ponto de confundir — são também homens desprovidos de vitalidade que falsificam a vida. * "Se a confusão é possível, é porque existem homens devitalizados entre os vivos, homens em 'falso', com um 'falso eu' à maneira de Winnicott." * "'Tânatos pode adotar todas as formas que quiser; pode matar Eros, a força vital, e imitá-lo em seguida. Se Tânatos faz isso com você, você está mal: acredita ser guiado por Eros, mas não é senão Tânatos usando uma máscara.'" * Em Dick, "está vivo aquele que serve a vida; morto aquele que serve a morte, escraviza e mutila a vida." * A ausência de empatia dos homens-programas faz deles homens mortos — "mortos para sua própria vitalidade, para sua própria sensibilidade, e seu rosto não é mais que uma máscara que simula emoção e afeição." Em "Uma Meia Obscura", o personagem passa por uma morte cerebral, uma morte da sensibilidade que o transforma em puro instrumento de visão — uma câmera sobre tripé. * "'Imagine: você é consciente, mas não vivo. Você vê, e até compreende, mas não vive. Você tem o nariz colado no vidro. Reconhece as coisas, mas isso não faz de você um ser vivo. Pode-se morrer e durar ainda. Às vezes, o que observa por trás dos olhos de alguém morreu na infância.'" * "O junkie tornou-se uma câmera sem memória, um olho vazio." Mas é o inverso que sobretudo interessa a Dick — todos os casos em que indivíduos organicamente mortos continuam a viver. * "Não se pode mais manter a alternativa: vivo ou morto. Em Dick, pode-se ser os dois ao mesmo tempo ou bem nem um nem outro, nem totalmente morto nem totalmente vivo." * Em "Dr. Bloodmoney", há uma "menina com um irmão gêmeo vivendo no interior de seu corpo, na região inguinal, não maior do que um coelho recém-nascido" que ouve a voz dos mortos — esse irmão larvar está literalmente entre a vida e a morte, assegurando a comunicação entre os dois mundos. * Uma das características de certos relatos de Dick é que se morre frequentemente logo no início — as primeiras linhas de "O Caso Rautavaara" são exemplares: "'Os três técnicos do globo flutuante encarregados de controlar as flutuações dos campos magnéticos interestelares saíam-se muito bem; nisso, morreram.'" * "O relato descreve então o destino de personagens mortos, mergulhados num estado de 'semi-vida', como se o famoso enunciado impossível que encerra a narrativa de Poe — 'agora, estou morto' — tivesse liberado novas possibilidades." A obsessão pela sobrevivência post-mortem é especialmente marcada nos personagens que exercem poder político — como se o poder fosse inseparável de uma fantasia de imortalidade como ideia fixa suprema. * Em "Esperando o Ano Passado", o ditador hipocondríaco Molinari, secretário das Nações Unidas, encontra-se perpetuamente à beira da morte; sua interminável agonia constitui um verdadeiro "instrumento de estratégia política" — ele morre mesmo várias vezes durante uma reunião decisiva para o destino da Terra. * "Molinari utiliza os corpos de outros Molinari, vindos de mundos paralelos, que faz morrer uns após os outros como outros tantos corpos de reserva, instaurando assim um novo tipo de dinastia fundada não mais na diacronia, mas na sincronia." * Isso é como uma nova versão da teoria dos dois corpos do rei da teologia política medieval exposta por Kantorowicz — "o soberano era esse ser de exceção que reúne em si dois corpos: um corpo orgânico humano e um corpo político divino; este último 'não conhece nem Infância nem Velhice', nem ferida nem morte." * "O problema não se coloca mais nos mesmos termos em Dick — não é mais teológico-político, mas tecno-político; à dualidade homem-deus substituiu-se a dualidade homem-máquina." * Em "Dr. Bloodmoney", o focomelo, "a meio caminho entre Ricardo III e Richard Nixon", substitui seu organismo diminuído por um corpo tecnológico que controla cerebralmente com poderes paranormais: "'Antigamente, os fios eram ligados ao meu corpo. Agora, é no cérebro que se fazem as ligações. Fui eu mesmo que as implantei.'" A dissociação tornou-se, nos romances de Dick, antes de tudo uma questão de imagens — de um lado, as imagens do poder; de outro, um poder real, mas sem imagens. * Em "Simulacros", há de um lado as imagens factícias imortais, a de um presidente eterno — mas que foi substituído por um andróide — e de Nicole Thibodaux, "primeira-dama" tornada muito popular graças à televisão — mas que está morta há muito tempo e cujo papel é desempenhado por atrizes. * Em "A Última Verdade", os discursos do presidente andróide são concebidos por um computador: "'O que se introduzia no Megavac 6-v sob a forma de simples elementos linguísticos acabaria por emergir dele como um discurso perfeitamente estruturado que câmeras de televisão e microfones registrariam, uma exposição definitiva de cuja veracidade nenhum indivíduo lúcido viria duvidar.'" * O conto "O Que os Mortos Dizem" narra a história de um grande industrial que deseja ser reanimado logo após a morte para fazer eleger seu candidato às próximas eleições presidenciais — mas é sua filha que imita perfeitamente a voz do pai: "'o pai desceu na filha; ela o compreendeu e incorporou tão bem que se tornou como seu avatar, semi-ressurreição ou prolongamento orgânico, criança-enxerto e instrumento de reprodução política.'" * "O corpo político tornou-se um avatar informacional — morro organicamente, mas sobrevivo informacionalmente; não há interrupção dos programas." * "'Nick lançou um último olhar à imensa sala em forma de caverna com suas dez mil telas... Viu todas essas pessoas como ectoplasmas, desprovidos de corpos reais. Todas essas criaturas policiais ocupadas em suas pequenas tarefas haviam renunciado a viver há muito tempo; contentavam-se em absorver a energia vital das telas colocadas sob seu controle — ou mais precisamente dos seres que se agitavam nelas.'" O anti-herói dickiano por excelência é Richard Nixon — "uma figura de Cristo invertido, absorvendo sobre si todo o negativo, absorvendo toda a paranóia do país, com ele também seus dois corpos distintos." * Nixon constituiu um novo corpo político dotando a Casa Branca de um sistema de escutas generalizado — "ela é o novo corpo político, com seus microfones e seu cérebro paranóico delirante, tão dissociado quanto o agente dos Narcóticos de Uma Meia Obscura." * Dick fez de Nixon um personagem de romance em "Rádio Livre Albemuth" e em "SIVA", e interpretou a queda de Nixon como um feliz presságio — "isso significava que ele não era mais o mestre das informações." "Ubik" coloca da maneira mais clara o que implica esse desejo de sobrevivência através do personagem de Jory — o jovem vampiro que "come" o que resta de vida nos outros semi-vivos para prolongar sua existência. * Como em "O Caso Rautavaara", "Ubik" segue uma equipe de investigadores-caçadores cujos membros morrem logo no início, vítimas de uma explosão — o relato descreve então o destino desses personagens mortos em estado de semi-vida, numa versão delirante do Bardo Thödol, o Livro dos Mortos tibetano. * "De um lado, o tempo recua seu curso de maneira acelerada — o leite coalha, o café apodrece, os aparelhos técnicos e os meios de transporte regridem; de outro, os personagens morrem uns após os outros, vítimas de um processo de envelhecimento acelerado a ponto de cair em pó." * "Jory age como um vírus que infecta os mundos dos semi-vivos e absorve sua energia vital — em estado de semi-vida, os mundos tornaram-se virtuais ao mesmo tempo que os psiquísmos se tornaram aparelhos de telecomunicação." * "Com Ubik, passou-se definitivamente para um mundo onde não há mais viventes; subsistem somente mundos virtuais em guerra uns contra os outros que só vivem de vampirizar o pouco de energia vital que ainda alimenta os cérebros." * "'Parecemos ser fitas memoriais — portadores de DNA capazes de sentir — num sistema pensante de estilo informático que, embora tenhamos registrado e armazenado corretamente milhares de anos de informação experiencial e cada um de nós possua relíquias bastante diferentes vindas de todas as outras formas de vida, sofre de um disfuncionamento — de uma pane — na busca de informações. É aí que se situa o problema de nosso subcircuito particular.'"