====== Calasso ====== ROBERTO CALASSO Ao refletir sobre o próprio trabalho, o autor afirma que nunca sabia qual seria o próximo passo — e que cada vez aquele passo acabava por parecer inevitável, com uma única exceção. * O rosa Tiepolo nasceu dentro de A Loucura Baudelaire e a certo ponto se destacou dela, antecipando o corpo de que havia nascido. * As Núpcias de Cadmo e Harmonia começou nas primeiras linhas, escritas ao retorno de uma das viagens anuais à Grécia, e se desenvolveu sem que o autor soubesse o que se seguiria — ainda que com a certeza de que algo devia seguir. * Ka nasceu num trem na Índia, numa manhã cedo, na névoa — também dessa vez sem nenhuma ideia do livro que o seguiria. * De Ka a K. foi o salto mais brusco nos tempos e na matéria, e o salto mínimo possível nos títulos. Enquanto escrevia K., o autor não pensava em Tiepolo — estava ainda imerso na matéria indiana. * Recorda um verão em que alternava entre escrever K. pela manhã e comentários ao Śatapatha Brāhmaṇa à tarde, comentários que acabaram n'A Ardência — e vice-versa. Há também o caso de um livro mais longo em torno ao Antigo Testamento — O Livro de Todos os Livros —, que se destacou de um livro em torno ao Novo Testamento, ainda não concluído. No Caçador Celeste aparecem fragmentos de um livro posterior, ali onde dialogam Utnapishtim e Simbá. * A situação em que se encontram, ainda que não especificada, poderia ser idêntica à da Tábua dos Destinos — e de fato um dos dois fragmentos reaparece ali sem nenhuma mudança. * Quanto ao outro, deveria também ter reaparecido na Tábua dos Destinos e, ao contrário, permaneceu em seu lugar de origem — talvez um dia migre igualmente. * Utnapishtim não deixou nenhum testemunho escrito — era o mesmo caso do "Bilhete para Lucien" n'A Ruína de Kasch: carta assinada Talleyrand e endereçada ao Lucien Leuwen de Stendhal, que ainda estava longe de aflorar como personagem de um romance inacabado. * Quando escrevia O Caçador Celeste, o autor não pensava ainda de nenhum modo na narração da Tábua dos Destinos — e recorda que um dia, enquanto um editor verificava as correspondências com as Fontes das passagens citadas no Caçador Celeste, foi anunciado com certo alarme que faltava o reenvio para as palavras de Utnapishtim; faltava porque eram palavras do autor. Wendy Doniger estava em dúvida se admirar ou considerar demasiado audacioso que o início de Ka seguisse de perto uma passagem do Mahābhārata. * O autor respondeu que aquela passagem do Mahābhārata seguia ela mesma de perto um texto muito anterior, o Suparṇādhyāya — "é assim, afinal, que se desenvolve a literatura, crescendo sobre palavras anteriores, variando-as, hibridando-as." * Nas primeiras páginas de Ka leem-se estas palavras de Vinatā: "A impaciência me venceu, abri o seu ovo cedo demais. Somente então compreendi o que um dia dirá um ṛṣi de terras distantes, um vidente pálido e angular: que a impaciência é o único pecado." * Aquele ṛṣi de terras distantes que Vinatā citava era Franz Kafka. (Roberto Calasso. Opera senza nome. Adelphi)