====== Núpcias de Cadmo e Harmonia ====== //[[..:start|CALASSO, Roberto]]. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.// * Na praia de Sídon, Zeus se disfarçou de touro branco e, com o auxílio de Eros, raptou Europa levando-a pelo mar enquanto deuses e mortais assistiam à cena. * Tritão respondeu aos mugidos amorosos soprando sua concha * Bóreas, sorrateiro e ciumento, assobiou ao ver os seios da jovem descobertos pelo vento * Atena corou ao ver o pai montado por uma moça * Um marinheiro aqueu se perguntou se seria Tétis querendo ver o céu, alguma Nereida vestida ou Posêidon raptando mais uma jovem * No meio da travessia, Europa gritou ao vento e ao mar que um touro a carregara, pedindo que sua mãe recebesse o colar que ela enviava. * Europa cogitou pedir a Bóreas que a erguesse em suas asas, como fizera com sua própria noiva, Orítia, de Atenas * Conteve-se ao perceber que seria apenas trocar um raptor por outro * Cenas de moças colhendo flores revelaram-se irresistíveis aos deuses, pois foi assim que Perséfone, Talia, Creúsa e Europa foram raptadas. * Perséfone foi levada enquanto brincava com companheiras de fundo decote, colhendo rosas, açafrões, violetas, íris, jacintos e narcisos * O narciso era descrito como flor prodigiosa e radiante, assombrosa aos olhos de deuses e mortais * Talia foi agarrada pelas garras de uma águia — Zeus novamente — enquanto jogava bola num campo florido * Creúsa sentiu as mãos de Apolo envolverem seus pulsos enquanto colhia açafrão nas encostas da Acrópole de Atenas * Europa e suas amigas colhiam narcisos, jacintos, violetas, rosas e tomilho * Entre um rebanho de touros surgiu um animal de brancura deslumbrante, com pequenos chifres faiscantes como joias, que seduziu Europa com mansidão até ela montar em seu dorso. * O touro gemeu de prazer como um filhote, deitou-se na grama e ofereceu os chifres para as guirlandas * Europa, ousada como uma amazona, montou-o * O rebanho se afastou discretamente para a praia * O touro avançou nervosamente para a água e já estava cortando as ondas com Europa sobre si * Ela se virou, a mão direita agarrada a um chifre, a esquerda apoiada no lombo do animal, a brisa agitando suas vestes * Antes do rapto, Europa tivera um sonho vívido em que duas mulheres — Ásia e uma terra sem nome — disputavam sua posse, e a estranha a arrastava por ordem de Zeus. * Ao acordar, Europa ficou sentada em silêncio por longo tempo * Saiu depois como de costume com as amigas, desceu até a foz do rio e vagou entre rosas e ondas com seu cesto dourado na mão * Um touro louro apareceu no prado com um círculo branco na testa, exalando um perfume que sufocava o cheiro das flores, e se ajoelhou diante de Europa até ela subir em seu dorso. * O touro lambeu o pescoço da jovem, que lhe afagou a cabeça enquanto enxugava a saliva que escorria livremente * No momento em que ela montou, o animal se lançou para o mar * Aterrorizada, Europa olhou para a praia, acenou para as amigas com um braço no ar * Já nas ondas, agarrou um chifre com uma mão e segurou a barra da túnica contra o peito com a outra * Atrás dela, a túnica se inflava como uma vela púrpura * O cesto de ouro que Europa carregava, obra de Hefesto e transmitido por Libie a Telefassa e desta a Europa, era o talismã da família e trazia gravada em relevo a história de Io. * No lado do cesto, em ouro em relevo, havia uma novilha errante aparentemente nadando num mar esmaltado * Dois homens misteriosos observavam da margem * Um Zeus dourado tinha a mão a roçar o animal cor de bronze * Ao fundo, um Nilo prateado * A novilha era Io, trisavó de Europa * A história de Io foi igualmente de rapto e metamorfose: atormentada por um moscardo, ela cruzou mar após mar em permanente angústia mental, tendo dado seu nome ao mar que conduz à Itália. * Io era sacerdotisa no Heraion perto de Argos, o mais antigo dos santuários e referência para a medição do tempo grego durante séculos * Sonhos sussurraram-lhe o amor apaixonado de Zeus e a mandaram para os campos de Lerna, onde pastavam os rebanhos de seu pai * A partir daí ela deixaria de ser sacerdotisa consagrada à deusa para ser um animal consagrado ao deus * O santuário expandiu-se até se tornar o mundo inteiro, com seus mares sem fim que Io cruzou sem descanso, e quanto mais vasta a paisagem, mais intensa sua dor. * Quando se deparou com Prometeu, outro prisioneiro que não podia esperar morrer, Io queria apenas morrer * A libertação veio por fim: após cruzar para o Egito, Zeus a tocou de leve com a mão, e a jovem vaca enlouquecida voltou a ser moça e se uniu ao deus * Em memória desse momento ela chamou seu filho de Épafos, que significa o toque leve de uma mão * Épafos tornou-se rei do Egito e corria o rumor de que era também o boi chamado Ápis * O destino de Europa era a inversão melódica do de sua ancestral Io: assim como Io, uma novilha errante partida de pastagens gregas, terminou no Egito com o toque leve da mão de Zeus, um touro carregaria Europa da Ásia para o continente que viria a chamar-se Europa. * Europa carregava seu destino gravado em metais preciosos, sem pensar nisso * Se o que se busca é história, ela começa como conflito, e esse conflito se inicia com o rapto ou o sacrifício de uma moça, numa alternância contínua entre as duas coisas. * Os lobos mercadores chegados por navio da Fenícia raptaram de Argos a virgem consagrada ao touro, chamada Io * Esse estupro acendeu a fogueira do ódio entre os dois continentes, e Europa e Ásia nunca deixaram de se combater * Os cretenses, os javalis do Ida, raptaram Europa da Ásia em navio com forma de touro, oferecendo-a como noiva ao rei Astério * Um neto de Europa teria o mesmo nome celeste: um jovem com cabeça de touro que vivia no centro de um labirinto aguardando suas vítimas — o Minotauro * Os mercadores fenícios passaram dias em Argos vendendo mercadorias do Mar Vermelho, do Egito e da Assíria, até que um grupo de mulheres chegou e alguns foram raptados, entre elas Io, filha do rei. * Os cretenses alegavam vingar esse rapto ao levar Europa, filha do rei fenício * Os fenícios, porém, têm outra versão: Io estava apaixonada pelo capitão do navio estrangeiro, já estava grávida e envergonhada, e partiu por vontade própria * Desses eventos nasceu a própria história: o rapto de Helena, a Guerra de Troia e, antes disso, a expedição dos Argonautas e o rapto de Medeia — todos elos de uma mesma corrente. * Heródoto anotou uma diferença entre os dois lados da disputa: raptar mulheres é ação de canalhas, mas se preocupar com as raptadas é reação de tolos; o homem sábio não pensa um instante nas mulheres raptadas, pois é evidente que, se não quisessem ser levadas, não o teriam sido * Os gregos não se comportaram com sabedoria: por uma mulher espartana reuniram um grande exército e, chegando à Ásia, derrubaram o poder de Príamo * Desde então a guerra entre Europa e Ásia nunca cessou * Zeus e Europa fizeram amor em Gortyn, sob um enorme plátano, e depois ele desapareceu deixando um guardião: Talos, um touro mecânico ou gigante de bronze forjado por Hefesto, que corria pela costa de Creta lançando pedras. * Uma veia longa percorria o corpo de Talos do pescoço às plantas dos pés, interrompida por um prego de bronze que continha o fluxo de sangue — segredo da vida da criatura e da arte da fundição * No palácio de Sídon Europa acordava ao som de vozes amigas; em Creta acordava ao silêncio, e no fundo desse silêncio um som distante que se tornava ensurdecedor, sem que ela visse ninguém * Os nomes Io, Telefassa, Europa, Argiope, Pasifae, Ariadne e Fedra evocam um rosto amplo, puro e luminoso como a lua, e sobre eles Gustave Moreau pronunciou palavras de espanto e compaixão. * Moreau disse: Figuras enormes, pálidas, tremendas, solitárias, sombrias e desoladas, amantes fatais e misteriosas condenadas a infâmias titânicas — que terrores, que compaixão inspirais, que imenso e assombroso luto despertais nos mortais chamados a contemplar tamanha vergonha e horror, tantos crimes, tamanha infortúnio * Diodoro Sículo afirmou que as honras aos deuses, os sacrifícios e os ritos dos mistérios desceram originalmente a outros povos a partir de Creta. * O rito de iniciação celebrado pelos atenienses em Elêusis, o dos samotrácios e o iniciado por Orfeu na Trácia entre os cícones eram transmitidos em segredo entre iniciados * Em Cnosso, Creta, era costume desde sempre praticar tais ritos à luz do dia e dar conhecimento deles a todos * O que era considerado inominável entre outros povos estava disponível em Creta para quem quisesse ouvir * Em Creta o mistério era exposto a todos sem sentido de desafio, e a civilização cretense, com suas cem cidades sem muralhas defensivas, parecia um enorme brinquedo que só poderia ser destruído por uma onda gigante ou por invasores do mar. * Um famoso morfologista das civilizações, ao estudar os vestígios cretenses, não encontrou qualquer indício de consciência histórica, política ou biográfica como a que dominava o pensamento egípcio * Para quem buscava sinais de grandes civilizações, Creta tinha algo de infantil, de escorregadio, de aquém do esperado * As Tábuas de Linear B incluem muitos nomes de deuses: cerca da metade sobreviveu como deuses olímpicos, a outra metade se perdeu — são meros nomes que aparecem ao lado de Zeus, Posêidon e Hera. * É como se os deuses olímpicos tivessem sido outrora muito mais numerosos e carregassem consigo as sombras de irmãos e irmãs perdidos * Creta deixou vestígios de potes de grãos numerados nos depósitos, selos com bestas meio de uma coisa meio de outra, afrescos delicados, nós de marfim, listas de oferendas, mel, vagens de papoula inscritas, crânios de boi e machados de dois gumes. * Havia colunas de madeira de cipreste, palácios com escadarias e poços de luz, lápides sem nome * Pequenos ídolos amontoados, não estátuas nem duplos de pedra — nada da verticalidade do divino, nenhum sinal da presença alucinatória da pedra ereta * As histórias nunca vivem sozinhas, pois são ramos de uma família que é preciso rastrear para frente e para trás, e no êxtase da travessia marítima Europa carrega dentro de si os destinos de suas netas Fedra e Ariadne, que um dia se enforcariam de vergonha e desespero. * Nas raízes celestes dessa árvore de histórias está a errância da novilha enlouquecida — a ancestral Io — que por sua vez encerra a imagem de outra novilha enlouquecida, mãe de Fedra e Ariadne: Pasifae * Pasifae também se enforcou de vergonha * Do rochedo, Ariadne observa Fedra em um balanço; ambas são jovens princesas em Cnosso, filhas de Minos e Pasifae, com muitos irmãos e um meio-irmão de cabeça de touro, Astério, encarcerado num edifício projetado por um inventor ateniense. * As princesas conheciam o labirinto, mas no passado ele ficava a céu aberto para todos verem, como espaço amplo para a dança * Quando Minos saiu para conquistar o continente e os cretenses passaram a ter muitos contatos com os gregos, chegou o momento de encobrir os segredos e, afinal, envergonhar-se deles * Dédalo, o ateniense, projetou em Creta um edifício que escondia atrás de muros de pedra tanto o mistério — o padrão da dança — quanto a vergonha — Astério, o Minotauro * A partir desse dia, o mistério passou a ser também aquilo de que se tem vergonha * As formas se manifestavam à medida que passavam pela metamorfose, e cada forma tinha sua nitidez própria enquanto a retinha, mas todos sabiam que um momento depois poderia tornar-se outra coisa. * Na época de Europa e Io, o véu da epifania ainda operava: o touro mugidor e a vaca enlouquecida voltariam a aparecer como deus e moça * Com o passar das gerações, a metamorfose tornou-se mais difícil e a natureza fatal da realidade mais evidente * Uma geração depois de Europa, Pasifae teve de se encolher dentro de uma vaca de madeira sobre rodas — um brinquedo enorme — para ser levada até os prados de Gortyn onde pastava o touro que desejava * Da união nasceu uma criatura que jamais poderia voltar a ser besta ou homem — um híbrido para sempre * Assim como Dédalo inventou um objeto inanimado para que a mãe amasse o touro, teve de inventar outro — o labirinto — para esconder o filho * O Minotauro seria morto, Pasifae morreria em cativeiro e vergonha * Os seres humanos não podiam mais ter acesso a outras formas e delas retornar — o véu da epifania estava rasgado e em frangalhos * Para manter o poder de metamorfose não havia alternativa senão inventar objetos e gerar monstros * Enquanto Ariadne participava dos jogos conforme o costume cretense, ela ficou maravilhada ao ver Teseu vencer adversário após adversário, e nesse instante Creta começou a desmoronar, pois antes de ser traída, Ariadne escolheu trair sua ilha. * Dioniso a corteja, depois a acusa, depois a mata, depois a redescobre e a transforma na coroa do céu do norte, Corona Borealis * Mas esse era um Dioniso diferente do que Ariadne conhecera na infância — ele nem se chamava Dioniso então, era o Touro total, que desce dos céus como Zeus, sobe do mar como Posêidon e pasta sob os plátanos de Gortyn * O Touro estava no mel e no sangue oferecidos aos deuses, nos chifres esguios de cada lado dos altares, nos crânios de boi pintados ao longo das paredes do palácio * Jovens com braçadeiras, saias e cabelos ondulados o agarravam pelos chifres em plena corrida * O touro se afasta e o herói ateniense avança, não como inimigos que se substituem, mas como figuras que trocam de lugar suavemente, pois esse é o destino de Ariadne: não mais o palácio régio infantil, mas os pórticos e praças públicas onde homens duros e espertos se apunhalam pelas costas. * A palavra, que em Creta servira para inventariar mercadorias nos depósitos, tornaria-se soberana, vibrante e reverenciada * Ariadne não viveu para ver isso: parou no meio do caminho, presa em outra ilha, rochosa e inóspita * Fechou os olhos para nunca mais ter de ver nem o deus nem o homem que, por natureza, não podiam fazer mais do que aparecer e desaparecer * Teseu transformou o hábito divino de raptar donzelas em passatempo humano: em cada aventura raptava uma mulher, fosse Ariadne ao sul ou a Amazona Antíope ao norte, sempre com algo lúdico e até temerário. * Aos cinquenta anos ainda o fazia, raptando uma certa Helena que dançava no santuário de Ártemis Ortia * Nessa ocasião foi auxiliado pelo único ser a quem seria fiel até o fim: seu amigo Pirítoo * Teseu e Pirítoo se encontraram como inimigos prestes a se baterem, mas ao se verem cada um admirou a beleza e a força do outro, tornando-se daí em diante companheiros de aventura. * Teseu nunca foi tão feliz quanto ao lado de Pirítoo, inventando aventuras irreverentes, executando-as e depois comentando-as * Nada podia separá-los — muito menos uma mulher * Pirítoo, viúvo de Hipodâmia, foi visitar Teseu em Atenas e encontrou outro viúvo — Fedra havia se enforcado — e logo os dois planejaram raptar Helena de Esparta, uma menina de dez anos mais bela do que qualquer mulher. * Jogaram um dado para saber quem a ficaria, e Teseu ganhou * Depois de percorrer o mundo inteiro, a única coisa que restava a Teseu e Pirítoo era violar o submundo — tendo raptado princesas terrestres, por que não reinar sobre rainhas divinas, enganando o rei dos mortos? * Pirítoo e Teseu desceram ao Hades para raptar sua rainha * Teseu é aquele que se levanta e parte, e enquanto crescia o medo de represálias, Pirítoo propôs ir até o Cabo Tenaro, descer ao Hades e raptar a rainha mais poderosa de todas. * Não se tratava mais de raptar uma menina de doze anos dançando num santuário, nem de aprender as danças do labirinto com uma jovem encantadora * O projeto era mais duro: os dois tentaram arrancar a noiva de Dis de seu leito nupcial * O castigo reservado pelo rei do submundo foi sutil — Hades os ouviu polidamente, os convidou a sentar em duas cadeiras douradas incrustadas na rocha, e um laço invisível os prendeu a elas para sempre. * Pirítoo, o que vagueia em círculos, e Teseu, o raptor, tiveram de esquecer a si mesmos, imóveis no reino dos mortos * Quando Héracles salvou Teseu arrancando-o da cadeira à força, tiras de carne ficaram para trás — por isso, dizem, os meninos atenienses têm nádegas tão pequenas e magras * Antes de a cidade ser chamada Atenas, toda a região estava cheia de bandidos e feras que atacavam os viajantes, até que um arauto chegou do mar anunciando que um jovem havia percorrido todos os caminhos e matado todos os malfeitores — Sinis, Feia, Cícloro, Cercião e Procrusto, entre outros. * O jovem carregava uma espada de cabo de marfim a tiracolo e dois reluzentes dardos, um em cada mão * Usava um boné espartano sobre cachos cor de trigo e um colete púrpura sob um manto de lã da Tessália * Uma luz perversa lampejava em seus olhos * Teseu usava o cabelo curto na frente — para que ninguém o agarrasse na luta — e longo e trançado atrás; os caracóis que caíam sobre a testa havia dedicado a Apolo em Delfos. * Quando apareceu pela primeira vez nos arredores de Atenas tinha dezesseis anos e usava uma longa túnica jônica * Operários que trabalhavam no templo de Apolo Delfínio gozaram dele perguntando o que fazia uma jovem casadoira vagando sozinha sob a Acrópole * Teseu não respondeu: foi até uma carroça com um touro atrelado, soltou o animal e o jogou no ar — viram-no voar acima do teto ainda inacabado * Foi a primeira vez que Teseu teve a ver com um touro * Muitos outros touros cruzariam seu caminho: o Minotauro em Creta, o touro capturado em Maratona, e um touro que surgiria do mar para matar seu filho Hipólito, e por isso Teseu colocou uma cabeça de touro nas primeiras moedas que cunhou em sua cidade, a sagrada Atenas — foi ele quem escolheu o nome. * Teseu enterrou a espada no corpo do Minotauro * A captura do touro de Maratona foi celebrada pelos atenienses * Egeu sacrificou o touro de Maratona a Apolo * Há algo de blasfemo em Teseu — uma insolência indomável que antecipa Alcibíades — e quando ele e Pirítoo embarcam na descida ao submundo para resgatar Perséfone, a aventura soa como paródia. * Alcibíades foi acusado de celebrar mistérios religiosos com prostitutas e vagabundos * Assim como Alcibíades um dia conduziu com grande solenidade uma procissão pela Via Sacra em direção a Elêusis, Teseu presidia os ritos mais secretos da cidade * Ele brincava com esses segredos porque os conhecia muito bem, pois lhe pertenciam desde o nascimento * Teseu não tinha razão particular para abandonar Ariadne — não havia outra mulher, foi apenas que ela saiu de sua mente por um momento, um momento que poderia ser qualquer momento, e quando Teseu se distrai alguém se perde. * Ariadne ajudara o Estrangeiro a matar seu meio-irmão de cabeça de touro, havia deixado o palácio da família e estava pronta para lavar os pés de Teseu em Atenas como uma escrava * Teseu é cruel não por abandonar Ariadne, mas por abandoná-la na ilha de Naxos — não o lar onde nascera, não o lar que esperava ser acolhida, nem sequer um país intermediário * Apenas uma praia açoitada por ondas trovejantes, um lugar abstrato onde apenas as algas se movem, a ilha onde ninguém vive — o lugar onde a obsessão gira em torno de si mesma sem saída * Um constante exibicionismo da morte — este é um lugar da alma * Ariadne foi deixada para trás e as vestes caem de seu corpo uma a uma, numa cena de luto: acordada mas imóvel como estátua de bacante, a filha de Minos olha para o horizonte onde o navio veloz de Teseu já desapareceu. * A fita que prendia seus cabelos loiros escorregou, o manto caiu deixando o peito desnudo, os seios ficaram sem o suporte da faixa * Uma a uma, as vestes com que havia deixado Creta para sempre caíram e se espalharam a seus pés * As ondas brincavam com elas na areia e nas algas * Enquanto Ariadne fazia um inventário mental de todas as demonstrações de servilidade que gostaria de mostrar ao amante desaparecido, ocorreu-lhe que talvez outra mulher tivesse sentido o mesmo — e essa outra mulher era sua própria mãe, a rainha esplêndida e sem pudor Pasifae. * Pasifae, fechada em sua vaca de madeira, aquele brinquedo desajeitado e colorido sobre rodas, havia concordado em servir a um simples pastor * Havia dobrado o pescoço para deixar que a colocassem no jugo, sussurrado palavras de amor a um touro mudo mastigando capim * Escondida no escuro sufocante, no cheiro de madeira, as flautas do pastor a irritavam, pois havia apenas um som que queria ouvir: o mugido do touro branco * Ariadne percebeu que, se havia apenas repetido a paixão de sua mãe Pasifae, então Teseu era o touro — mas Teseu havia matado o touro, seu meio-irmão, com a ajuda dela própria. * As únicas a morrer nessa história eram as mulheres: Pasifae, que se enforcou; Ariadne, que se preparava para se enforcar; e sua irmã Fedra, que se enforcaria mais tarde * Os touros e seus vencedores apenas trocavam de lugar, como se matar e ser morto fosse para eles uma alternância tão simples quanto despir e vestir-se * O touro não conhecia a morte vertical do enforcamento, o ser erguido para longe da terra * Quando a proa esmaltada de azul do navio ateniense chegou a Creta e Teseu impediu Minos de tocar nas meninas atenienses e venceu nos jogos o odioso General Touro, Ariadne pensou que esse estrangeiro irreverente poderia ser forte o bastante para romper o círculo obcecado pelo touro em que sua família estava presa. * Ela traiu o touro divino que a deslumbrara numa caverna, traiu seu irmão touro o Minotauro, traiu sua mãe que enlouquecera por um touro e traiu seu pai que preferiu não sacrificar o touro branco do mar mas pô-lo a pastar por ser belo demais para matar * Ao final de todas essas traições, encontrou-se numa praia deserta, abandonada por Teseu * Mas não conseguira escapar do touro * Quando Dioniso apareceu, falso e sedutor, Ariadne sentiu que ele e Teseu não eram rivais mas cúmplices, e o deus sufocou esse pensamento entre o clamor de flautas e pandeiros. * Ariadne reconheceu a desonestidade do arranjo: se Teseu não tivesse quebrado sua palavra, Dioniso não a teria elevado até si * Mas Dioniso não permanece ao lado de ninguém, e partiu com seus seguidores barulhentos para a Índia * Ariadne ficou sozinha novamente * Quando o deus reapareceu carregado de tesouros e escravas, Ariadne observou seu triunfo e notou o olhar apaixonado que Dioniso lançou a uma jovem princesa indiana — e logo se veria chorando numa praia novamente, os cabelos soltos ao vento. * A concubina indiana poluiu o leito deles * Ariadne chorava e era constantemente assombrada pelo medo de que Teseu nunca viesse a saber disso * Mas ela ainda não havia percebido que Dioniso e Teseu não eram realmente inimigos — as duas figuras opostas eram manifestações do mesmo homem que a traía sem parar, enquanto ela continuava se deixando trair * Eu me acostumei a amar o mesmo homem para sempre — essa capacidade de amar eternamente era sua sentença de morte, destruía qualquer esperança de escapar de seu círculo obsessivo, de sua coroa resplandecente * Desde o início até o fim, a história de Ariadne está tecida em torno de uma coroa: minha prima está chegando, a jovem princesa pensou quando lhe disseram que Dioniso havia desembarcado na ilha. * Dioniso não quis ficar no palácio — agarrou seu pulso e a levou a uma das muitas cavernas de Creta, onde a escuridão foi rompida por uma coroa deslumbrante de ouro ardente e joias indianas * Dioniso ofereceu a coroa a Ariadne como presente nesse primeiro encontro — sinal de perfeição, arauto do silêncio propício, a coroa era um círculo de sedução * Seduzir significa também destruir em grego — a coroa é a perfeição do engano, é o engano que se fecha sobre si mesmo, é a perfeição que inclui o engano em seu interior * Quando Ariadne voltou o olhar para o belo Teseu, ela já não era mais a menina que brincava com as irmãs no palácio de Cnosso — era a noiva de um deus, ainda que ninguém soubesse de sua união. * Teseu, vindo do palácio subaquático de seu pai Posêidon, também segurava uma coroa de pequenas flores de macieira, pingando água e irradiando luz, que deu a Ariadne — assim como Dioniso lhe dera a sua * Ao mesmo tempo Ariadne deu a Teseu a coroa de Dioniso, repetindo o gesto do deus e traindo-o para que o Estrangeiro pudesse matar o Minotauro * Ao entrar nas passagens escuras do labirinto, Teseu foi guiado pela luz da coroa resplandecente, e sua espada cintilou nessa luz antes de ser enterrada no corpo do jovem de cabeça de touro * Ariadne elevou o engano a um patamar superior: traiu seu parceiro divino e ao mesmo tempo ofereceu o presente de amor dele ao homem que estava tomando seu lugar * O engano já estava lá desde o início, no presente do deus, pois Ariadne imaginava que Teseu era o oposto do deus — o homem que a levaria como noiva para Atenas, além do círculo vicioso do touro. * Quando Dioniso reapareceu em Naxos agitando uma coroa brilhante, Ariadne olhou para ela e pensou nas outras coroas que estiveram por trás das outras traições em sua vida * Percebeu então que aquela coroa era sempre a mesma coroa * Sua história estava realmente encerrada: Ariadne seria para sempre solitária, prisioneira daquela coroa radiante no céu — Corona Borealis * Em qualquer história cretense há um touro no começo e um touro no fim: no começo Minos convoca das águas do mar o touro branco de Posêidon, prometendo sacrificá-lo, mas não cumpre a promessa por achar o animal belo demais para matar — e por esse touro a esposa de Minos, Pasifae, desenvolverá sua paixão fatal. * No final, Teseu captura em Maratona um touro que era novamente o touro cretense surgido do mar * Após seus acasalamentos com Pasifae o touro havia enlouquecido, e Minos chamou Héracles para capturá-lo — o herói o levou para o continente, e por muito tempo o animal vagou pelo Peloponeso até chegar à Ática * Ninguém o pudera dominar, nem mesmo Andrógeo, filho de Minos, que vencia todos os atenienses nos jogos * Teseu capturou-o em Maratona e o ofereceu a seu pai Egeu, que o sacrificou a Apolo * Tudo entre esse começo e esse fim — o destino de Ariadne — ocorre no interior do deslocamento de um sacrifício: de Posêidon a Apolo, de Creta a Atenas * Esse percurso está semeado de cadáveres, e do sacrifício, junto com o sangue, jorram as histórias — assim emergem os personagens da tragédia: Pasifae, o Minotauro, Ariadne, Fedra, Minos, Hipólito e o próprio Egeu * Voltando de Creta, Teseu esqueceu de baixar as velas negras, e Egeu se matou lançando-se da Acrópole — a última nota de rodapé do deslocamento do sacrifício * Alguns habitantes de Naxos sustentam que existiram dois Minoses e duas Ariadnes: uma foi a noiva de Dioniso em Naxos e mãe de Estáfilo e seu irmão; a outra, que viveu algum tempo depois, foi primeiro raptada e depois abandonada por Teseu, chegando à ilha com uma ama chamada Corcine, cujo túmulo os habitantes mostram. * A segunda Ariadne, que também morreu na ilha, não recebeu as mesmas honras que a primeira * A festa em memória da Ariadne anterior acontecia entre jogos e alegria, ao passo que para a segunda havia apenas sacrifícios mesclados de luto e tristeza * O destino de Ariadne é dual desde o início, e os ritos celebrados em Naxos celebravam essa dualidade sem buscar consolo nas noções de morte e ressurreição. * Aquela que se torna a noiva de Dioniso, a única escolhida dentre a multidão de mulheres que o rodeiam e que recebe dele até um novo nome — Libera — é também a mulher que Dioniso mandou matar * Dioniso pediu a Ártemis que a traspassasse com uma flecha — e quis assistir * Com o tempo tudo se converteu em eufemismo, e o que restou nas paredes de Pompeia foi apenas uma imagem de amor celestial * As figuras míticas vivem muitas vidas e morrem muitas mortes — diferindo assim dos personagens de romances, que nunca vão além de um único gesto —, e em cada uma dessas vidas e mortes todas as outras estão presentes, ecoando. * Abandonada em Naxos, Ariadne foi morta pela flecha de Ártemis a pedido de Dioniso, que observava imóvel; ou Ariadne se enforcou em Naxos após ser abandonada por Teseu; ou grávida de Teseu e naufragada no Chipre, morreu lá no parto; ou Dioniso veio a ela em Naxos, celebraram um casamento divino e ela subiu ao céu, onde ainda se vê entre as constelações do norte; ou Dioniso veio e ela o seguiu em suas aventuras compartilhando seu leito e lutando entre os Bacantes enlouquecidos, até que Perseu agitou diante dela o rosto mortal de Medusa e Ariadne se transformou em pedra — e ali ficou, uma pedra num campo * Nenhuma outra mulher ou deusa teve tantas mortes quanto Ariadne: aquela pedra em Argos, aquela constelação no céu, aquele cadáver enforcado, aquela morte no parto, aquela jovem com uma flecha no peito — Ariadne era tudo isso * A história jamais teria se posto em movimento sem o moscardo, instrumento da vingança de Hera, cujo olhar bovino implacável encontramos em toda parte nas vidas dos heróis — e o próprio nome Héracles significa glória de Hera, revelando desde o início que a glória não é mais do que um subproduto da vingança da deusa. * Como crianças, Zeus e sua irmã Hera descobriram o amor secreto: sem o conhecimento de seus queridos pais, abraçaram-se no leito, como diz Homero, e Zeus a acariciou por trezentos anos. * Nos ouvidos deles ressoava o trovão interminável do Imbraso, o rio de Samos — eles se abraçavam entre o rio e o mar, jamais se cansavam, esqueciam o mundo além dessas águas * Zeus adiava o momento de governá-lo * Milhares de anos depois, na areia úmida do Imbraso, foi encontrado um relevo em pedra que devia ter ficado num leito de madeira, mostrando Zeus de pé avançando em direção a Hera, com o peito dela descoberto e a mão dele tomando o seio direito dela * Hera é a deusa do leito — preocupa-se inclusive se o velho Oceano e Tétis, que a criaram quando menina, estão se privando dele — e o véu primordial para ela é o pastós, a cortina nupcial que envolve o tálamo. * Em Paestum e em Samos há ainda evidências de que o leito era objeto devocional central do culto * Quando Hera faz amor com Zeus no cume do monte Gárgaro, a terra brota um tapete de flores espessas e macias que os erguem do chão * O pseudo-leito é então rodeado por uma nuvem dourada para substituir o pastós * No santuário mais majestoso de Hera, o Heraion de Argos, o adorador podia ver, numa mesa votiva, uma imagem da boca de Hera fechando-se amorosamente em torno do falo ereto de Zeus — nenhuma outra deusa, nem mesmo Afrodite, havia permitido uma imagem assim em seu santuário * Foi no Heraion que começou a história da primeira traição de Zeus, origem de todas as vinganças: Zeus escolheu uma das sacerdotisas de Hera, o ser humano mais próximo da deusa por guardar as chaves do santuário, cujo nome era Io. * Na aparência e no vestuário, cabia a Io recriar a imagem da deusa que servia — ela era uma cópia esforçando-se para imitar uma estátua * Zeus escolheu a cópia — quis aquela diferença mínima que basta para subverter a ordem e gerar o novo, gerar sentido * Ela a quis por ser uma diferença, e a ela por ser uma cópia * Quanto mais insignificante a diferença, mais terrível e violenta a vingança * Todas as outras aventuras de Zeus e todas as outras vinganças de Hera não seriam mais do que novos impulsos nessa mesma roda de necessidade que Hera pôs a girar para punir a mulher mais semelhante a ela mesma