====== O POETA ====== //Jacques Masui - De la vie intérieure. Trad. A. Béguin.// Não devemos nos surpreender que, nos dias de hoje, certas escolas poéticas tenham acreditado poder ir além da literatura para reencontrar as funções primitivas da poesia, a fim de tornar novamente acessíveis realidades vivas e eternas, enterradas sob o peso de uma cultura moribunda. Antes do surrealismo, já havia a tentativa do romantismo, como atesta o trecho a seguir da obra de Achim von Arnim. Sempre houve uma realidade secreta no universo, mais preciosa e profunda, mais rica em sabedoria e alegria do que tudo o que causou impacto na história. Ela está muito próxima do íntimo do ser humano para que os contemporâneos possam percebê-la claramente; mas a história, em sua verdade suprema, dá à posteridade imagens carregadas de advertências. Assim como as impressões digitais em rochas duras dão ao povo a ideia de um passado estranho, esses sinais na história fazem aparecer diante de nossos olhos interiores, em flashes isolados que nunca revelam todo o horizonte, a obra esquecida dos espíritos que outrora levaram uma existência humana na Terra. Esse conhecimento, quando é comunicável, chamamos de poesia; ele nasce do espírito que o anima; o poeta parece mais pobre ou mais rico do que é, se o considerarmos apenas sob um desses pontos de vista. Uma razão equivocada pode acusá-lo de mentira em sua suprema veracidade; sabemos o que ele é para nós, e que a mentira é um belo dever do poeta. Semelhantes à alegria da primavera, os poemas não são de forma alguma uma história da Terra; são a lembrança daqueles que despertaram em espírito dos sonhos que os trouxeram aqui; um fio condutor concedido pelo santo Amor aos habitantes da Terra cujo sono é agitado. As obras poéticas não são verdadeiras daquela verdade que esperamos da história e que exigimos de nossos semelhantes, em nossas relações humanas; elas não seriam o que buscamos, o que nos busca, se pudessem pertencer inteiramente à terra. Pois toda obra poética traz de volta ao seio da comunidade eterna o mundo que, ao se tornar terreno, se exilou dela. Chamemos de videntes os poetas sagrados; chamemos de visão de uma espécie superior a criação poética: a história pode então ser comparada ao cristalino do olho, que não vê por si mesmo, mas é indispensável à visão, para concentrar a luz; sua natureza é clareza, pureza, ausência de cores. Quem ofende essas qualidades na história a ponto de torná-las a própria verdade também dá à poesia um contato seguro com o mundo. Se aproveitamos de bom grado os acontecimentos insignificantes de nossa própria vida para fazer brotar a poesia, é porque normalmente podemos considerá-los com mais verdade do que nos é dado fazer com os grandes acontecimentos do universo. Mas, certamente, a parte ativa e afetiva que tomamos neles é mais um obstáculo do que uma vantagem; na verdade, a violência da emoção sufoca até mesmo a voz, que lhe imporia a medida do tempo: quanto mais difícil ainda deve ser conciliá-la com esse lento arado do poeta que é a pena! A paixão permite simplesmente perceber, em sua verdade espontânea, os movimentos do coração humano e o que poderíamos chamar de canto selvagem da humanidade: e é por isso que nunca houve poeta sem paixão, mas não é a paixão que faz o poeta. Pelo contrário, nenhum poeta jamais fez uma obra duradoura no momento em que estava sob o domínio da paixão; somente depois que ela cumpriu seu curso, cada um de nós pode ter prazer em refletir sua emoção sob seu nome ou sob outro, contando sua própria história ou a de seus personagens.