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OS IRMÃOS KARAMAZOV

Dostoyevsky: AS MULHERES POBRES

Tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes

quarta-feira 30 de julho de 2014

Seleção do texto em « Églises Russes » (org. J. Cantou).

Embaixo da galeria de madeira que dava para o muro exterior do recinto apertavam-se umas vinte mulheres do povo. Tinham-nas prevenido de que o stáriets sairia afinal e haviam-se agrupado à espera. As proprietárias Khokhlakovi esperavam-no igualmente, mas num quarto da galeria, reservado às visitantes de qualidade. Eram duas: a mãe e a filha. A primeira, senhora rica e sempre trajada com gosto, era ainda bastante jovem e de exterior bastante agradável, de olhos vivos e quase negros. Tinha apenas 33 anos e estava viúva havia cinco. Sua filha, de catorze anos, tinha as pernas paralíticas. A pobre menina não andava mais havia seis meses; carregavam-na numa cadeira de rodas. Tinha um rosto delicioso, um pouco emagrecido pela doença, mas alegre. Algo de folgazão brilhava nos seus grandes olhos sombrios, de longas pestanas. Desde a primavera estava a mãe disposta a levá-la ao estrangeiro, mas trabalhos efetuados em suas terras haviam-nas retardado. Desde uma semana, viviam em nossa cidade, mais por negócios que por devoção, mas já haviam visitado o stáriets três dias antes. Agora voltavam e, embora sabendo que o stáriets não podia quase receber mais ninguém, suplicavam que lhes concedesse "a felicidade de ver o grande curador". Aguardando a vinda dele, a mãe estava sentada ao lado da poltrona de sua filha; a dois passos mantinha-se de pé um velho monge, vindo dum longínquo convento do norte e que desejava receber a bênção do stáriets. Mas este, quando apareceu na galeria, dirigiu-se diretamente ao povo. A multidão comprimia-se em torno do patamar de três degraus que reunia a galeria baixa ao solo. O stáriets manteve-se no degrau superior, revestiu-se da estola e pôs-se a abençoar as mulheres que o cercavam. Trouxeram-lhe uma possessa que seguravam pelas duas mãos. Assim que ela avistou o stáriets, foi tomada dum soluço, lançando gemidos e sacudida por espasmos, como numa crise de eclampsia. Tendo-lhe coberto a cabeça com a estola, pronunciou o stáriets sobre ela uma curta prece e ela acalmou-se imediatamente. Ignoro o que se passa agora, mas na minha infância tive muitas vezes ocasião de ver e de ouvir essas possessas, nas aldeias e nos conventos. Levadas à missa, ganiam e ladravam na igreja, mas quando traziam o santo sacramento e elas dele se aproximavam, a "crise demoníaca" cessava imediatamente e as doentes se acalmavam sempre por certo tempo. Ainda menino, isso me espantava e me surpreendia bastante. Ouvia então certos proprietários rurais e sobretudo professores da cidade responderem às minhas perguntas que era aquilo uma simulação para não trabalhar e que se podia sempre reprimi-la, mostrando severidade. Citavam-se em apoio disto diversas anedotas. Mais tarde, soube com espanto, de médicos especialistas, que não havia ali nenhuma simulação, que era uma terrível doença das mulheres, atestando, mais particularmente na Rússia, a dura condição de nossa camponesa. Provinha de trabalhos estafantes, executados muito cedo, após laboriosos partos mal efetuados, sem nenhuma ajuda médica; além disso, desespero, maus tratos, etc., etc., o que certas naturezas femininas não podem suportar, malgrado o exemplo geral. A cura estranha e súbita de uma possessa presa de convulsões, desde que a aproximavam das sagradas espécies, cura atribuída então à simulação e, além do mais, a um ardil empregado, por assim dizer, pelos próprios "clérigos", efetuava-se provavelmente também da maneira mais natural. As mulheres que conduziam a doente, e sobretudo ela própria, estavam persuadidas, como duma verdade evidente, de que o espírito impuro que a possuía não poderia jamais resistir na presença do santo sacramento, diante do qual inclinavam a infeliz. De modo que, numa mulher nervosa e psiquicamente doente, produzia-se sempre (e isto devia ser) como que um abalo nervoso de todo o organismo, abalo causado pela expectativa do milagre da cura e pela fé absoluta na sua realização. E ele se realizava, nem que fosse por um minuto. Foi o que ocorreu, assim que o stáriets cobriu a doente com a estola.

Muitas das mulheres que se comprimiam em redor dele vertiam lágrimas de enternecimento e de entusiasmo, sob a impressão daquele minuto; outras avançavam para beijar nem que fosse a orla do hábito dele; algumas lamentavam-se. Ele as abençoava a todas e conversava com elas. Conhecia já a possessa, que morava numa aldeia a 6 verstas do mosteiro; não era a primeira vez que lha traziam. — Eis uma que vem de longe! — disse ele, apontando uma mulher ainda jovem, mas muito magra e desfeita, o rosto mais enegrecido que queimado. Estava de joelhos e fitava o stáriets com um olhar imóvel. Seu olhar tinha qualquer coisa de desvairado. — Venho de longe, bátiuchka, de longe, a 300 verstas daqui. De longe, meu pai, de longe — repetiu a mulher como um estribilho, balançando a cabeça da direita para a esquerda, com a face apoiada na palma de sua mão. Falava como que se lamentando. Há no povo uma dor silenciosa e paciente; entra em si mesma e se cala. Mas há uma outra que explode: manifesta-se por lágrimas e se expande em lamentações, sobretudo entre as mulheres. Não é mais ligeira que a dor silenciosa. As lamentações só se acalmam roendo e dilacerando o coração. Semelhante dor não quer consolações, repasta-se com a ideia de ser inextinguível. As lamentações são apenas a necessidade de irritar cada vez mais a ferida. — A senhora é da cidade, sem dúvida? — continuou o stáriets, olhando-a com curiosidade.


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