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AUTOS DE GIL VICENTE

Gil Vicente: Todo-Mundo e Ninguém

Auto da Lusitânia

segunda-feira 28 de julho de 2014

Adaptação de Carlos Drummond de Andrade

Ninguém: Qual o seu nome, cavalheiro?
 
Todo-Mundo: Eu me chamo Todo-Mundo e todo meu tempo busco dinheiro, e sempre nisso me fundo.
 
Ninguém: Eu me chamo Ninguém e busco a Consciência.
 
Belzebu: Eis uma boa experiência: Dinato, escreve isto bem.
 
Dinato: Que escreverei, Companheiro?
 
Belzebu: Que Ninguém busca consciência e Todo-mundo dinheiro.
 
Ninguém: E agora que buscas lá?
 
Todo-Mundo: Busco honra muito grande
 
Ninguém: Eu, virtude, que Deus ordene que a encontre já.
 
Belzebu: Outra adição: escreve logo aí, que honra Todo-Mundo busca e Ninguém busca virtude.
 
Ninguém: Buscas outro bem maior que esse?
 
Todo-Mundo: Busco mais quem me louvasse tudo quanto fizesse
 
Ninguém: E eu quem me repreendesse em cada coisa que errasse.
 
Belzebu: Escreve mais
 
Dinato: Que tens sabido?
 
Belzebu: Que Todo-Mundo quer em extremo grau ser louvado, e ninguém ser repreendido.
 
Ninguém: Buscas mais, amigo meu?
 
Todo-Mundo: Busco a vida e quem ma dê.
 
Ninguém: A vida nem sei que é, e a morte conheço eu.
 
Belzebu: Escreve lá outra sorte
 
Dinato: Que sorte?
 
Belzebu: Todo-Mundo busca a vida e Ninguém conhece a morte.
 
Todo-Mundo: E mais queria o Paraíso sem a ninguém estorvar.
 
Ninguém: E eu por ter a pagar quanto devo para isso.
 
Belzebu: Escreva com muito aviso
 
Dinato: Que escreverei?
 
Belzebu: Escreve que Todo-Mundo quer Paraíso e Ninguém paga o que deve.
 
Todo-Mundo: Folgo muito em enganar e mentir nasceu comigo.
 
Ninguém: Eu sempre verdade digo sem nunca me desviar.
 
Belzebu: Ora escreve lá compadre, não sejas tu preguiçoso
 
Dinato: Que?
 
Belzebu: Que Todo-Mundo é mentiroso e Ninguém diz a verdade.
 
Ninguém: Que mais buscais?
 
Todo-Mundo: Lisonjear
 
Ninguém: Eu sou todo desengano
 
Belzebu: Escreve, anda lá mano
 
Dinato: Que me mandas assentar?
 
Belzebu: Põe aí bem declarado: Todo-Mundo é lisonjeiro, e Ninguém desenganado.

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